Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

O LIRIO

Naquela época, há muito tempo, vivia um pastor.

Esse pastor chamava-se Martim e vivia numa casinha à volta da qual saltitavam as cabras que ele guardava para o patrão.

Martim gostava imenso das suas cabras, que eram muito bonitas, sobretudo a Sara, uma cabrinha travessa e muito vaidosa. as flores faziam-lhe vénia e não paravam de a admirar.

Excepto o Lírio que a achava demasiado emproada. Essa falta de consideração da parte do Lírio envergonhava muito Sara, que passava em frente a essa flor, tão diferente das outras, lançando-lhe olhares de desprezo. É preciso que saibam que nesses tempos o Lírio ainda não tinha as lindas campainhas que exibe na primavera; era uma planta selvagem com flores sem graça, redondas e sem ornamentos.

Mais mimalha de dia para dia, a bela Sara também troçava de Martim, seu pastor. muitas vezes afastava-se do rebanho e escondia-se por trás de uma moita onde era dificil Martim encontrá-la. Como sara gostava então de ouvir a voz preocupada do pastor a chamá-la, muito inquieto porque tinha medoo de perder a cabra mais bonita do seu rebanho... Sara ficava muito orgulhosa de o ver procurar por todo o lado...

Pouco a pouco, Sara provocava assim a má vontade das suas companheiras. porque ela troçava das outras cabras, que não eram tão bonitas como ela. a sua vaidade tornava-se verdadeiramente insuportável. o próprio Martim zangava-se quando a Sara era demasiado desobediente.

E a erva murmurava: como Sara é mimalha!

As próprias flores já não faziam vénia perante uma cabra desobediente. acabaram por partilhar a opinião do Lírio. mas, indiferente ao mau humor que provocava em volta, Sara continuava teimosa.

Um dia o senhor daquelas terras apareceu e perguntou a martim se as cabras se portavam bem.

- Sim - diz Martim -, mas Sara causa-me muitas preocupações.

- Então põe-lhe uma coleira!- disse o senhor - uma coleira com um guizo: assim saberás sempre onde ela está, pelo chocalho do guizo.

quando sara ouviu tais palavras, ficou em pânico: iam pôr-lhe uma coleira, com um guizo!

E todos troçavam dela. Todos? Bem, nem todos! porque o Lírio não se ria. no fundo, o Lírio tinha bom coração e via lágrimas nos olhos de Sara.

A cabrinha afastou-se tristemente das companheiras. e pôs-se a chorar amargamente.

Adeus vaidade! Adeus, caprichos! Ia usar uma coleira! Que vergonha para uma cabrinha independente.

Quando o patrão se foi embora, Martim pegou numa coleira com um guizo e pô-la ao pescoço de Sara. mas a cabrinha deu pulos tão grandes que estragou a coleira e Martim teve que a deitar fora.

- Nao perdes pela demora - diz ele. - o guizo fica aqui na consola da granja e amanhã trago outra coleira.

E Martim foi para casa. debaixo da consola onde ele tinha posto o guizo, Sara chorou toda a noite. agora lamentava não ter sido mais obediente. Quando o sol voltou a aparecer no céu, a cabrinha arrastava-se tristemente pela erva.

Com pena dela, o Lírio chamou-a:

- Sacode a consola - diz ele - e faz o cair o guizo para o chão, depois traz-mo.

Sara não sabia o que queria fazer o Lírio, mas obedeceu e trouxe-lhe o guizo.

- Agora - diz o Lírio -, perante todas as outras cabras promete ser mais gentil e mais sensata!

- Sim, sim, prometo! - diz Sara.

- Então - diz o Lírio -, junta-te ao rebanho como se nada se tivesse passado.

- O que vais fazer com o guizo? - perguntou Sara.

- Isso é comigo! - respondeu o Lírio.

Sara estava tão feliz por poder cabrolar despreocupadamente, que não insistiu mais. Mas não esquecia a sua promessa e mostrava-se meiga e amavel.

O Lírio, por seu lado, reuniu as suas petalas em volta do guizo que se encontrava no chão, tapando-o quase totalmente. e ficou imovel naquela posição, para esconder o guizo. foi assim que essas flores encantadoras ficaram com o seu belo aspecto.

Martim, o pastor, nunca mais encontrou o guizo. mas também não se ralou com isso, porque Sara tinha-se tornado tão dócil e respondia tão bem ao minimo dos seus chamamentos, que ele não precisava de a procurar. Contudo, Martim tinha curiosidade de saber porque é que Sara acariciava sempre com a ponta da lingua um estranho Lírio que ela parecia adorar. Também não percebia porque é que todos os Lirios que nasciam por ali a partir de então pareciam guizos. Mas achava as flores bonitas e habituou-se a oferece-las ao seu patrao todos os anos no mes de Maio.

As pessoas grandes, quando oferecem Lirios, não sabem disto. Mas as crianças pensam sempre na Sara, no mês de Maio.

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                Autora: IRÈNE DEKELPER 

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